Corpus Christi: O pão que sacia a fome de amor e de sentido

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Nesta festa de Corpus Christi ouvimos o trecho do Evangelho de São Lucas que nos apresenta a multiplicação dos pães e dos peixes, diante da multidão faminta que ouvia com atenção o Senhor e se encontrava desprovida do necessário para comer e viver (cf. Lc 9,11b-17). Perante a necessidade daquele povo e a insuficiência dos meios, testemunhada pelos apóstolos, Jesus sente compaixão e faz um gesto que anuncia o que hoje estamos celebrando.

O milagre nos prepara para compreender melhor a Eucaristia: um dom abundante, pão com fartura que chega a sobrar para guardar e distribuir para quem não está presente, diferente do maná no deserto que não se podia guardar.

Na oração de coleta pedíamos ao Senhor Jesus “venerar de tal modo o sagrado mistério do seu Corpo e Sangue, que experimentemos continuamente os frutos de sua paixão”. A primeira condição para venerar a Eucaristia é reconhecer que Ela contém em si todo o bem de que necessitamos. Nela Jesus está verdadeira e realmente conosco, não nos deixa sozinhos, através dela Jesus se doa (renova o seu sacrifício de amor), faz-se pão para alimentar a nossa vida, para nos dar força para amá-lo e amar os demais, nela também Ele nos une: quando recebemos Jesus, nós nos tornamos mais unidos a Ele e entre nós. Formamos um só corpo, que é a Igreja. COMUNHÃO!

Os detalhes da festa de hoje, o Corpus Christi, querem nos ajudar a cercar a Eucaristia de veneração: a adoração é um gesto de fé, expressão do nosso reconhecimento da presença do Senhor, que é única e ímpar neste sacramento. Ao mesmo tempo, os tapetes que confeccionamos são gestos de reconhecimento e gratidão. Neles retratamos tantas realidades que fazem parte da nossa fé e da nossa vida. Ao passar Jesus Eucaristia por eles reconhecemos que Ele toca nossa existência concreta, feita de ideais, realizações, sonhos, lutas, urgências, promessas e trabalho comunitário. Juntos oferecemos a Jesus um mundo mais belo, mas não esquecemos que a beleza de tudo só tem sentido se Ele estiver presente. Como na multiplicação dos pães só Deus pode saciar a fome de amor e de sentido que guardamos dentro do nosso coração. Fomos feitos por Deus e para Deus e só Ele pode satisfazer a fome e sede que temos.

Daqui a pouco, quando recebermos a bênção com o Santíssimo Sacramento, no final de nossa celebração, diremos que este é o pão do céu que contém em si todo sabor.

Mas não somente em Corpus Christi somos chamados a venerar este mistério da fé. O cotidiano de nossa vida e da vida das nossas comunidades é feito de Eucaristia: celebrações, momentos de adoração, catequeses, ministérios, serviço da caridade, missão, trabalho, família, etc. Não esqueçamos de fazer de nossa vida uma Eucaristia, um sacrifício (um dom sagrado), unido ao sacrifício redentor de Cristo.

A Eucaristia não é apenas uma celebração, é a própria vida nossa e da Igreja. Em Cristo e com Ele nossa vida é feita de oferta, ação de graças e partilha. “Jesus tomou o pão, deu graças e o partiu”. Os gestos concretos de Jesus falam do movimento que deve seguir quem quer venerar a Eucaristia. Ela compromete a vida inteira. Tomar parte da Eucaristia é um chamado ao compromisso de reproduzir na própria vida os gestos de Cristo. Cada um é chamado a dar a própria contribuição, pequena, é verdade, mas que se transforma quando se trata de dispor nosso tempo, nossos recursos, nossa vida nas mãos de Cristo. Isto também é venerar a Eucaristia.

A Eucaristia nos tira da indiferença diante da realidade que nos cerca, pois tudo é chamado a se transformar de acordo com o projeto de Deus que une as pessoas no seu Filho como irmãos e irmãs.

Na Eucaristia está tudo o que a Igreja é e o que ela é chamada a viver. A Igreja é povo reunido ao redor da comunhão de Deus que é uno e trino. Por isso, o Concílio Vaticano II lembrou que Ela é a “fonte e o ápice de toda a vida cristã” (LG 11).

Neste jubileu da esperança, a Eucaristia que celebramos e veneramos nos ajude a deixar um rasto de sua luz nos lugares onde vivemos. Isso também é venerar a Eucaristia. A procissão de Corpus Christi precisa prosseguir quando retornarmos a nossa casa, ao nosso ambiente de trabalho, de estudo, de lazer, cuidando daqueles que o Senhor colocou junto de nós e cuidando também da nossa casa comum.

Cristo quis utilizar a natureza transformada em bem através do trabalho do ser humano para poder permanecer entre nós. O pão e o vinho são frutos da terra e do trabalho humano. A terra e o trabalho devem ser resguardados como sinais do sagrado que habita no meio de nós e como lembrança contínua de que tudo é dom de Deus e que deve ser oferecido a Ele para o bem de todos. A comunhão com Cristo nos ajuda a ver e a tratar todas as coisas de maneira nova, a favor da vida integral de cada pessoa humana. Cuidar bem da Eucaristia é condição importante para cuidar bem uns dos outros e de toda a criação.

Irmãos e irmãs, façamos valer aquilo que pedimos nesta celebração de Corpus Christi. Que a nossa participação frequente neste mistério nos leve ao compromisso de venerar a Eucaristia, zelando por nossas liturgias, mas também nos faça zelar pela comunhão na Igreja, Corpo de Cristo, e pelo bem dos nossos irmãos, especialmente dos mais pobres, expressão da carne sofredora de Cristo, oferecida na Cruz em sacrifício pela redenção do mundo.

Com Maria vivamos esta festa, oferecendo ao Senhor a beleza de uma vida sempre disposta a fazer em tudo a vontade de Deus.

* Homilia de Dom Gilson Andrade da Silva,
na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo,
em 19 de junho de 2025.