Irmãos e irmãs, hoje, em comunhão com as dioceses do mundo inteiro, concluímos a caminhada do Jubileu da Esperança, na celebração dos 2025 anos do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, a esperança que não decepciona. Encerramos como começamos, com a Festa da Sagrada Família, olhando para uma família concreta, simples, marcada por desafios, mas totalmente aberta ao projeto maior de Deus.
A família é, de fato, lugar de esperança quando se torna aquilo que é chamada a ser no desígnio de Deus. “O futuro da humanidade passa pela família” (São João Paulo II). É nela que se aprende a amar, a perdoar, a partilhar; é o primeiro espaço da solidariedade, onde ninguém é descartável. É ela o lugar normal da transmissão da fé, muitas vezes sem discursos, mas pelo testemunho, pela oração e pela confiança em Deus no cotidiano.
No livro do Eclesiástico as palavras honrar, respeitar, cuidar, revelam atitudes simples, aprendidas sobretudo no ambiente familiar, que constroem referências sólidas para a vida. Onde esses valores são vividos, a esperança encontra raízes profundas.
A Sagrada Família de Nazaré não esteve imune às dificuldades: conheceu a insegurança, a fuga, o exílio, o medo, mas também a companhia constante de Deus. E é justamente aí que ela se torna sinal de esperança para as famílias de hoje. A figura silenciosa e obediente de São José protagoniza uma verdadeira aventura de fé e de esperança, por isso está sempre a caminho: levanta-se, toma o Menino e sua mãe… vai… volta… entra na cidade.
José não recebe um projeto detalhado, mas apenas a luz necessária para o próximo passo. Ele confia, obedece, caminha. Assim é a esperança cristã: não nega os problemas, mas impede que eles nos paralisem. São José nos ensina que esperar é tomar a decisão de caminhar mesmo quando o caminho permanece envolto em sombras.
Ao longo deste Jubileu, fomos convidados a nos redescobrir como Igreja-família, caminhando juntos como peregrinos da esperança, a exemplo da Sagrada Família. Reforçamos o sentido da reconciliação, fomos sustentados pela esperança que nos acompanhou em meio a tantos desafios pessoais, familiares, sociais e eclesiais. A vida é atravessada por provações, mas talvez o maior risco seja perder a esperança que é inseparável da fé e da caridade.
Neste momento conclusivo, brota espontaneamente do nosso coração uma palavra: gratidão. A Deus que nos propiciou um ano de graças que partilhamos como família diocesana. Gratidão ao Papa Francisco, que nos deixou como legado este Jubileu. Ele que iniciou o seu pontificado com o convite à Alegria do Evangelho, quis também nos deixar, como síntese e horizonte, a imagem de uma Igreja chamada a ser peregrina de uma esperança que não decepciona. Este Jubileu nos fez caminhar exatamente assim: não como espectadores, mas como peregrinos, conscientes das dificuldades do caminho e sustentados pela certeza de que Deus caminha conosco.
Gratidão às Igrejas jubilares, que em cada vicariato se tornaram referências luminosas e casa acolhedora para o caminho de tantos irmãos e irmãs. Gratidão às muitas iniciativas pastorais, espirituais e solidárias que nos firmaram na esperança. Gratidão especial aos nossos presbíteros, que se colocaram generosamente como instrumentos da Reconciliação e da misericórdia, sobretudo pelo sacramento da Penitência. Quantos corações foram reconciliados, quantas lágrimas enxugadas, quantas consciências aliviadas! O Jubileu passou também pelas mãos ungidas dos padres, sinais vivos do Bom Pastor.
E agora, ao encerrarmos o Jubileu, duas perguntas se impõem e que têm a ver com legado deste Jubileu. O Jubileu da Esperança, se bem acolhido, não termina com o fechar da Porta Santa, mas pode deixar marcas duradouras na vida da Diocese. O que vivemos não pode ficar apenas na memória agradecida, mas precisa tornar-se legado, estilo de Igreja, modo de caminhar como Diocese.
A primeira pergunta é pessoal: que legado cada um de nós levará deste ano de graça? Talvez um coração mais reconciliado, uma fé mais simples e confiante, a decisão de não desistir e de “levantar-se” mais uma vez, como São José e de caminhar com a comunidade de fé. Mas há uma segunda pergunta que nos compromete como Igreja diocesana: que legado este Jubileu deixa para nossa Diocese?
Queremos sair deste Jubileu como um Povo de Deus espiritualmente renovado: mais orante, mais amante da Palavra, mais centrado em Cristo. Comunidades que redescobrem a força da oração pessoal e comunitária, a beleza do sacramento da Reconciliação, uma Igreja menos cansada e mais confiante na ação de Deus na história.
O Jubileu também nos pediu ser uma Igreja mais próxima dos feridos da vida, aonde a esperança vai além do discurso e se torna gesto concreto. Isso nos compromete a fortalecer a caridade organizada, cuidar dos pobres, das famílias feridas, dos encarcerados, dos que precisam de escuta.
Uma Diocese onde há acolhida, dignidade e cuidado com a vida.
O jubileu nos desafia a reconfigurar a pastoral a partir da esperança: mais missão e processos que acompanham as pessoas. Avaliar com sinceridade o que gera vida e o que precisa ser superado, valorizando a escuta, o discernimento e a corresponsabilidade. Assim, nossos planos pastorais serão mais simples, realistas e evangelicamente fecundos. Este Jubileu reacendeu em nós o chamado à comunhão eclesial. Uma Diocese mais sinodal, onde clero, vida consagrada e leigos caminham juntos, colaborando cada um com o dom que lhe é próprio e que faz crescer a todos.
No coração de tudo isso está a redescoberta da Eucaristia como fonte de esperança e alimento para a missão. Comunidades que celebram com mais consciência o mistério da fé, mais participação e compromisso, deixando que a fé celebrada se traduza em vida doada.
Da esperança vivida nasce também um impulso vocacional e ministerial. Uma Igreja que gera vocações porque acredita no futuro e desperta o desejo de doar a própria vida. Vocações sacerdotais, religiosas e leigas, com novas lideranças pastorais, tornando nossas comunidades menos dependentes de poucos e mais corresponsáveis.
Por fim, o Jubileu nos oferece um olhar renovado sobre a nossa Diocese. Uma memória agradecida que cura feridas do passado, liberta do saudosismo estéril e reacende o sonho. Lemos nossa história como história de salvação e seguimos com horizonte aberto, certos de que esta Igreja ainda tem muito a oferecer diante da realidade presente.
Que a Sagrada Família, que soube confiar, caminhar e recomeçar na esperança, nos ajude a guardar no coração o que vivemos e a transformar este Jubileu em vida, missão e futuro para a nossa Diocese. E que sigamos o caminho com a certeza de que Cristo nasceu, Cristo caminha conosco e Cristo permanece, ontem, hoje e sempre, a nossa esperança. Amém.






Agência Hesed.