Irmã Marie Henriqueta deixa legado de fé e defesa da vida

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Morreu no último sábado, 10 de janeiro, a religiosa e defensora dos direitos humanos irmã Marie Henriqueta Ferreira Cavalcante, 65 anos, vítima de um acidente de carro na BR-230, a rodovia Transamazônica, na Paraíba.

Reconhecida nacionalmente por sua atuação em defesa da vida e da dignidade humana, irmã Henriqueta presidia a Rede Solivida, da qual faz parte o Centro de Direitos Humanos da Diocese de Nova Iguaçu (CDHNI), e teve papel central na luta contra o tráfico de pessoas e a exploração sexual de crianças e adolescentes, especialmente em Marajó, no Pará. Sua trajetória esteve profundamente ligada ao trabalho iniciado ao lado de dom José Luís Azcona, bispo emérito do Marajó, falecido em 2024, ambos tornados símbolos dessa causa na região.

Defensora dos direitos humanos, irmã Henriqueta enfrentou ameaças de morte ao longo de sua missão, o que motivou sua inclusão, há mais de uma década, no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. Sua atuação firme e profética marcou o enfrentamento ao abuso e à exploração infantojuvenil, ao tráfico de pessoas, ao trabalho escravo e infantil, além da violência contra mulheres, idosos, do racismo e de diversas formas de discriminação.

O bispo de Nova Iguaçu e presidente do Centro de Direitos Humanos da Diocese de Nova Iguaçu, dom Gilson Andrade, manifestou pesar pela morte da religiosa e destacou sua trajetória de compromisso com os mais pobres:

“Com tristeza e dor, mas na fé e na esperança, recebemos a notícia da partida da nossa querida irmã Henriqueta. O Centro dos Direitos Humanos da Diocese de Nova Iguaçu manifesta seu pesar aos familiares, amigos e à Rede Solivida. Expressamos também nossa gratidão por toda a parceria que juntos construímos na defesa dos direitos dos mais pobres, com tantas iniciativas transformadoras. Que Deus a receba no seu Reino, pelo qual ela dedicou toda a vida, e console aqueles que hoje sentem sua perda”
Dr. Pierre, Irmã Henriqueta e Dom Gilson.

Em março de 2025, irmã Henriqueta esteve na Diocese de Nova Iguaçu para receber, em nome da Rede Solivida, a Medalha Dom Adriano Hipólito, durante o II Seminário Interregional do Projeto ABC dos Direitos Humanos, que teve como tema “O protagonismo das mulheres na produção de alimentos nos espaços urbanos e rurais”. A honraria foi concedida como reconhecimento ao trabalho desenvolvido na promoção dos direitos humanos e da justiça social.

A atuação da religiosa também foi reconhecida nacionalmente. Em novembro de 2025, ela foi uma das homenageadas na edição especial Amazônia do prêmio “Mulheres Inspiradoras do Ano”. Sua trajetória inspirou ainda a produção cultural: no filme Manas, a personagem de uma delegada, interpretada pela atriz Dira Paes, foi inspirada em sua história e em sua luta contra a violência no Marajó.

Irmã Henriqueta também integrou a Comissão de Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que ao longo dos anos destacou publicamente sua dedicação no enfrentamento de crimes que violam a dignidade humana, sobretudo contra crianças, adolescentes, jovens e adultos submetidos ao tráfico de pessoas.

O corpo da religiosa foi recebido no domingo, 11 de janeiro com homenagens na sede da Assembleia Legislativa do Pará (Alepa). Em seguida, foi celebrada uma missa presidida pelo arcebispo de Belém, dom Júlio Endi Akamine. O sepultamento está previsto para o município de Soure, na Ilha do Marajó, território que marcou de forma profunda sua missão e testemunho.

Irmã Marie Henriqueta Ferreira Cavalcante deixa um legado de fé, coragem e compromisso evangélico com os mais vulneráveis, que permanece como referência para a Igreja e para todos os que atuam na defesa da vida e da dignidade humana.