Monsenhor Luiz Antônio: “O território passa a definir quem tem acesso a direitos e quem vive na exclusão.”

0
317

A entrevista que você confere a seguir integrou a edição de fevereiro de 2026 da Revista Caminhando, no contexto das reflexões propostas pela Campanha da Fraternidade 2026. Agora, ela é publicada na íntegra aqui no site, para que mais pessoas possam aprofundar esse diálogo essencial sobre moradia, dignidade humana e compromisso cristão.

Partindo da convicção de que moradia é mais do que um espaço físico — é lugar de dignidade, cuidado e pertença, a conversa ilumina o tema Fraternidade e Moradia a partir do Evangelho e da realidade concreta das periferias urbanas. Para essa reflexão, a revista acolheu Monsenhor Luiz Antônio Pereira Lopes, cuja trajetória pastoral se constrói em profunda sintonia com as comunidades mais vulnerabilizadas. Sua palavra nasce do chão das comunidades, da escuta atenta e da ação comprometida, ajudando-nos a compreender que a moradia digna não é apenas uma questão social, mas um chamado evangélico à fraternidade, à corresponsabilidade e ao cuidado com a vida.

A seguir, você acompanha a entrevista completa.

O que significa, hoje, afirmar que a moradia é um direito e não um privilégio?

– MONSENHOR LUIZ ANTÔNIO PEREIRA LOPES (LA): Afirmar hoje que a moradia é um direito e não um privilégio significa reconhecer que ter um lugar digno para viver é condição básica para a vida humana e para a dignidade de toda pessoa. Moradia não é apenas um teto que protege da chuva ou do frio, mas um espaço de segurança, descanso, convivência, identidade e pertencimento. É no lar que a vida se organiza, os vínculos se fortalecem e a pessoa encontra condições mínimas para se desenvolver plenamente.

Quando a moradia é tratada como direito, entende-se que ela não pode depender exclusivamente do poder econômico ou da lógica do mercado. Cabe ao Estado, com a participação da sociedade, garantir políticas públicas que assegurem habitação adequada, saneamento, infraestrutura e acesso aos serviços essenciais. Isso implica enfrentar desigualdades históricas, a favelização, a situação de rua, a existência de imóveis vazios e a especulação imobiliária, que transformam a casa em mercadoria e excluem os mais pobres do direito de morar com dignidade.

Reconhecer a moradia como direito também significa compreender que ela está profundamente ligada a outros direitos fundamentais. Sem uma casa, torna-se difícil garantir saúde, educação, trabalho, segurança e participação social. Por isso, a moradia é um direito estruturante, que sustenta e torna possíveis muitos outros.

À luz da fé cristã, afirmar a moradia como direito é recordar que Deus escolheu habitar entre nós, fazendo-se próximo da realidade humana. Negar moradia é ferir a dignidade de quem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Assim, defender a moradia como direito é assumir o compromisso com cidades mais justas, humanas e fraternas, onde ninguém seja tratado como descartável e onde a vida, em todas as suas formas, seja respeitada e cuidada.

Quando uma casa deixa de ser apenas um espaço físico e se torna lugar de dignidade, cuidado e pertença?

– (LA): Uma casa deixa de ser apenas um espaço físico e se torna lugar de dignidade, cuidado e pertença quando é reconhecida como um direito humano fundamental e como espaço essencial para o desenvolvimento pleno da vida. A Constituição Federal do Brasil afirma que a moradia é um direito social (art. 6º), colocando-a no mesmo patamar da saúde, da educação e do trabalho, o que reforça que viver com dignidade exige mais do que um simples abrigo. Além disso, ao estabelecer que a propriedade deve cumprir uma função social (art. 5º, XXIII) e que a política urbana deve garantir o bem-estar dos habitantes (art. 182), a Constituição aponta que a casa deve servir à vida, à convivência e à justiça social, e não apenas aos interesses econômicos.

Nesse sentido, a moradia torna-se lugar de dignidade quando oferece condições adequadas de segurança, salubridade e privacidade, permitindo que a pessoa viva com saúde e respeito. Torna-se lugar de cuidado quando protege contra as vulnerabilidades, favorece relações familiares e comunitárias e possibilita o acesso a serviços básicos, como saneamento, transporte, educação e saúde. E transforma-se em lugar de pertença quando cria vínculos, identidade e sentimento de enraizamento no território, permitindo que a pessoa se reconheça como parte da comunidade e da cidade.

Essa compreensão é reforçada pela ONU-Habitat, que define a moradia adequada como muito mais do que um teto. Segundo os parâmetros internacionais do direito à moradia, fundamentados no artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e no artigo 11 do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, a habitação deve garantir segurança da posse, habitabilidade, acesso a serviços essenciais, localização adequada e custo acessível. Para a ONU-Habitat, a casa é o centro da vida cotidiana, lugar onde se constrói a dignidade humana, o cuidado mútuo e o sentimento de pertencimento.

Assim, tanto a Constituição brasileira quanto os princípios defendidos pela ONU-Habitat afirmam que a casa não pode ser reduzida a paredes e teto. Ela é espaço de vida, onde a esperança se renova, os vínculos se fortalecem e a pessoa encontra condições reais para viver com dignidade, cuidado e pertença no mundo.

Como a realidade das pessoas em situação de rua interpela nossa consciência pessoal e comunitária?

– (LA): A realidade das pessoas em situação de rua interpela profundamente nossa consciência pessoal e comunitária, pois revela feridas abertas de uma sociedade marcada pela desigualdade e pela exclusão. A presença de homens, mulheres e famílias privadas de moradia digna questiona nosso modo de viver, nossas escolhas e a forma como organizamos a vida em comum. Não se trata apenas de um problema social, mas de um apelo humano e espiritual que nos confronta com o sofrimento concreto de irmãos e irmãs a quem são negados direitos básicos.

À luz da Palavra de Deus, essa realidade se torna um chamado claro à responsabilidade e à conversão. Jesus se identifica com os mais vulneráveis quando afirma: “Eu estava sem abrigo e me acolhestes” (Mt 25,35), revelando que a relação com Ele passa necessariamente pela forma como tratamos os pobres e excluídos. O profeta Isaías recorda que o verdadeiro culto agradável a Deus consiste em “acolher em casa os pobres sem abrigo” (Is 58,7), mostrando que a fé não pode ser separada da justiça. A parábola do Bom Samaritano (Lc 10,33-34) denuncia a indiferença que ignora o sofrimento alheio e nos convida a uma compaixão que se transforma em ação concreta. Na mesma direção, a Primeira Carta de João questiona: “Como pode permanecer o amor de Deus em quem fecha o coração diante da necessidade do irmão?” (1Jo 3,17).

Essa interpelação não se limita à consciência individual, mas alcança também a responsabilidade comunitária e social. A Doutrina Social da Igreja afirma que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres, são também as da Igreja” (Gaudium et Spes, 1), deixando claro que a situação de rua não pode ser tratada como algo alheio à vida cristã. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja reconhece o direito à moradia como um direito humano fundamental, pois a dignidade da pessoa humana exige condições de vida verdadeiramente humanas. Quando esse direito é negado, toda a sociedade é ferida.

O Papa Francisco reforça essa denúncia ao afirmar que vivemos numa cultura que descarta os mais frágeis e deixa os pobres sem defesa (Evangelii Gaudium, 53). Em Fratelli Tutti, ele alerta para o risco da indiferença que torna invisíveis os que sofrem e rompe os laços de fraternidade, enfraquecendo a convivência social e humana.

Diante disso, a realidade das pessoas em situação de rua nos convoca a uma conversão pessoal e social que supere a indiferença, o preconceito e o assistencialismo limitado. É um convite a reconhecer no outro um irmão, a assumir compromissos concretos de solidariedade e a lutar por estruturas mais justas, para que ninguém seja privado de dignidade, cuidado e pertença.

O que significa reconhecer Cristo presente nas periferias, favelas, ocupações e nas ruas?

– (LA): Reconhecer Cristo presente nas periferias, nas favelas, nas ocupações e nas ruas é afirmar que Deus se faz próximo e visível na vida dos pobres, dos excluídos e dos que vivem à margem da sociedade. Essa convicção nasce do próprio Evangelho, no qual Jesus assume a condição dos últimos, caminha com eles e se identifica com seu sofrimento. Ao dizer: “todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40), Jesus revela que sua presença se manifesta de modo especial na vida concreta daqueles que carregam as marcas da exclusão. Esses lugares, portanto, não podem ser vistos como espaços de ausência, mas como realidades habitadas por Deus.

A Sagrada Escritura testemunha que Jesus nasceu em situação de pobreza, viveu sem ter onde repousar a cabeça (Lc 9,58) e inaugurou sua missão anunciando a Boa Nova aos pobres (Lc 4,18). Ele se aproxima dos marginalizados, partilha a mesa com os considerados indignos, toca os doentes e caminha com os esquecidos. A parábola do Bom Samaritano (Lc 10,33-34) mostra que o verdadeiro encontro com Deus se dá no cuidado concreto com quem foi ferido e deixado à margem do caminho. Assim, reconhecer Cristo nas periferias e nas ruas significa acolher esse chamado evangélico à proximidade e ao compromisso.

Essa compreensão está no coração da missão da Igreja, expressa na opção preferencial pelos pobres, assumida pela Doutrina Social da Igreja e pelo magistério latino-americano. O Documento de Aparecida recorda que a Igreja é chamada a reconhecer nos pobres o rosto sofredor de Cristo e a colocar-se ao lado deles como sinal do Reino de Deus. O Concílio Vaticano II já afirmava que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos pobres são também as da Igreja” (Gaudium et Spes, 1), reafirmando que a missão cristã passa necessariamente pelas periferias humanas e existenciais.

O Papa Francisco retoma e aprofunda essa perspectiva ao denunciar a cultura do descarte e ao afirmar que os pobres não são apenas destinatários da ação pastoral, mas sujeitos que evangelizam a Igreja. Em Evangelii Gaudium, ele destaca o vínculo inseparável entre o Evangelho e os pobres, enquanto em Fratelli Tutti recorda que a fraternidade cristã exige reconhecer a dignidade de cada pessoa, especialmente daquelas que vivem nas margens da sociedade.

Reconhecer Cristo presente nas periferias, nas favelas, nas ocupações e nas ruas significa, portanto, assumir uma fé encarnada, que se expressa na proximidade, na escuta e na defesa da dignidade humana. Esses espaços tornam-se verdadeiros lugares teológicos, onde Deus se revela e onde a Igreja é chamada a renovar sua fidelidade ao Evangelho, comprometendo-se com a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

Como a desigualdade social se manifesta concretamente na forma como as pessoas habitam a cidade?

– (LA): A desigualdade social se expressa de maneira concreta na forma como a cidade é habitada, revelando que o espaço urbano não é vivido de modo igual por todos. Enquanto alguns têm acesso a bairros planejados, moradia segura, serviços públicos adequados, áreas verdes e mobilidade eficiente, outros são empurrados para periferias distantes, favelas, ocupações precárias ou para as ruas. Nessas condições, a vida cotidiana é marcada pela insegurança, pela precariedade da infraestrutura e pela restrição de direitos. O território, assim, torna-se um fator decisivo de inclusão ou exclusão, influenciando diretamente o acesso à saúde, à educação, ao trabalho, à cultura e à participação na vida urbana.

Essa realidade fere a dignidade humana ao negar condições básicas para uma vida plena. A ausência de habitação adequada, saneamento, transporte e segurança compromete o desenvolvimento das pessoas e enfraquece os vínculos sociais. Quando parcelas significativas da população vivem nessas condições, enquanto coexistem grandes áreas vazias ou subutilizadas, a cidade deixa de cumprir sua função social e passa a reproduzir desigualdades.

A concentração da terra urbana, a especulação imobiliária e a manutenção de imóveis ociosos revelam um modelo de cidade orientado pela lógica do lucro e não pelas necessidades da vida. Essa dinâmica aprofunda a segregação socioespacial, privilegia poucos e empurra muitos para territórios cada vez mais vulneráveis, onde o acesso a oportunidades é limitado e a presença do poder público é frágil.

O direito à moradia digna está inseparavelmente ligado ao direito à cidade, entendido como a possibilidade real de todos participarem, usufruírem e influenciarem os rumos do espaço urbano. Quando populações inteiras são afastadas para áreas sem serviços essenciais, ou quando pessoas em situação de rua são tratadas como incômodo e não como sujeitos de direitos, esse direito é sistematicamente negado. A organização do território, nesse contexto, deixa de promover o bem comum e reforça processos de exclusão.

O Papa Francisco denuncia essa realidade ao afirmar que a desigualdade urbana é uma das expressões da cultura do descarte, que considera parte da população como excedente. Para ele, uma cidade justa é aquela que coloca a pessoa humana no centro, especialmente os mais vulneráveis. Por isso, a forma desigual como se habita a cidade não é apenas uma questão urbanística, mas um desafio ético e social que exige políticas públicas comprometidas com a justiça, o acesso equitativo aos bens comuns e a garantia do direito à moradia digna e à cidade para todos.

Por que não é possível falar de justiça social sem falar de teto, terra e trabalho?

– (LA): Não é possível falar de justiça social sem considerar terra, teto e trabalho, pois esses elementos constituem as condições mínimas para uma vida humana digna. A ausência de qualquer um deles compromete não apenas a subsistência material, mas também a identidade, a autonomia e a participação social. Por isso, a justiça social não se limita a princípios abstratos, mas se concretiza no acesso efetivo a esses bens fundamentais.

Na tradição bíblica, a terra é apresentada como dom de Deus destinado ao conjunto do povo e não como posse absoluta de alguns. A promessa da terra simboliza vida, liberdade e segurança, e a Lei estabelece mecanismos para evitar a exclusão, como o ano sabático e o jubileu, que previam a restituição das terras e o perdão das dívidas (cf. Lv 25). Essas práticas buscavam conter a concentração de bens e assegurar que ninguém fosse privado das condições básicas de subsistência. A denúncia profética da acumulação injusta (cf. Is 5,8; Am 5,11) confirma que a fidelidade a Deus é incompatível com a negação da dignidade do povo.

No Novo Testamento, Jesus aprofunda essa perspectiva ao anunciar o Reino de Deus como boa notícia para os pobres (cf. Lc 4,18). Sua vida revela proximidade com aqueles que viviam sem segurança material: Ele próprio viveu como itinerante, afirmando que “o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9,58). Seus gestos de partilha, cuidado e denúncia das riquezas acumuladas à custa da miséria alheia (cf. Lc 12,15; 16,19-31) mostram que a justiça do Reino se expressa em condições concretas de vida. A primeira comunidade cristã, inspirada por esse ensinamento, organizou a partilha dos bens para que “ninguém passasse necessidade” (At 4,34).

O Papa Francisco retoma essa tradição bíblica e social ao sintetizá-la nos três “T” — terra, teto e trabalho — apresentados como direitos essenciais, e não privilégios. A negação desses direitos compromete o enraizamento, a proteção, o pertencimento e a participação social das pessoas, gerando exclusão e descarte. Para Francisco, não há paz social possível enquanto esses direitos forem negados, pois a exclusão nessas dimensões alimenta pobreza, violência e rupturas sociais.

Assim, falar de justiça social sem terra, teto e trabalho é esvaziar o próprio sentido de justiça. Da tradição do Antigo Testamento ao testemunho de Jesus e ao magistério atual da Igreja, permanece a convicção de que a justiça querida por Deus se constrói quando todos têm acesso às condições concretas que tornam possível uma vida verdadeiramente humana, fraterna e digna.

 Qual é a responsabilidade do Estado, da sociedade e da Igreja diante da falta de moradia?

– (LA): Diante da falta de moradia, a responsabilidade do Estado, da sociedade e da Igreja deve ser compreendida a partir da relação inseparável entre direitos e deveres: quando um direito é negado, surge uma obrigação ética, social e política de resposta. A moradia, enquanto direito humano fundamental, não pode ser tratada como favor ou caridade ocasional, mas como exigência de justiça.

Ao Estado cabe a responsabilidade primária de assegurar o direito à moradia digna por meio de políticas públicas eficazes, planejamento urbano orientado pelo bem comum, acesso à terra urbanizada, regularização fundiária e enfrentamento da especulação imobiliária. Os direitos sociais exigem ações concretas do poder público; quando há omissão, tolerância ou produção de exclusões territoriais, o Estado falha no dever de garantir condições mínimas para uma vida digna e compromete o direito à cidade.

A sociedade também possui responsabilidade direta, pois os direitos não se sustentam apenas por normas legais, mas por uma cultura de solidariedade e corresponsabilidade. Empresas, instituições, movimentos sociais e cidadãos são chamados a superar o individualismo e a lógica do lucro acima da vida. A função social da propriedade e o destino universal dos bens exigem que a convivência com imóveis vazios, a especulação urbana e a exclusão habitacional sejam reconhecidas como expressões de injustiça, e não como situações naturais ou inevitáveis.

À Igreja compete uma responsabilidade profética, pastoral e testemunhal. Sem substituir o Estado, ela tem o dever de anunciar que a moradia digna é expressão concreta do Evangelho vivido. A opção preferencial pelos pobres leva a Igreja a estar próxima das periferias, favelas, ocupações e das pessoas em situação de rua, denunciando estruturas injustas e promovendo iniciativas que defendam a vida e a dignidade humana. A fé cristã, nesse sentido, não pode ser separada do compromisso com a justiça.

A encíclica Rerum Novarum (1891), de Leão XIII, constitui um marco fundamental da Doutrina Social da Igreja ao estabelecer a relação entre direitos e deveres na vida social. Nela, o Papa afirma que cabe à autoridade pública proteger os mais pobres e vulneráveis, reconhecendo que a justiça social não pode ser deixada apenas à iniciativa individual ou às forças do mercado. Sempre que a dignidade humana é ameaçada, especialmente quando os fracos são privados das condições necessárias para viver, a intervenção do Estado torna-se um dever moral.

Ao tratar da propriedade privada, a encíclica reconhece sua legitimidade, mas afirma que ela não é absoluta, pois está subordinada ao bem comum. Quando a riqueza e os bens são utilizados de modo a excluir ou negar o acesso aos bens essenciais, como a moradia, configura-se uma injustiça estrutural que fere a ordem moral e social. Por isso, Leão XIII afirma ser obrigação da autoridade pública “velar especialmente pelos fracos e indigentes” (Rerum Novarum, 29).

Desse modo, a encíclica explicita que o direito dos pobres a uma vida digna gera o dever do Estado e da sociedade de criar condições justas de existência e garantir que os bens da criação sirvam a todos. Assim, permanece atual ao afirmar que a justiça social exige responsabilidade coletiva e compromisso concreto com a dignidade humana, especialmente no acesso à moradia e às condições básicas de vida.

Diante da falta de moradia, portanto, o Estado é chamado a garantir direitos, a sociedade a promover justiça e solidariedade, e a Igreja a testemunhar, denunciar e cuidar. Quando direitos e deveres caminham juntos, a moradia deixa de ser privilégio de poucos e torna-se expressão concreta de uma sociedade verdadeiramente humana, fraterna e justa.

Como nossas comunidades cristãs podem se tornar sinais de acolhida e esperança para quem vive sem moradia digna?

– (LA): Nossas comunidades cristãs podem se tornar sinais vivos de acolhida e esperança para quem vive sem moradia digna quando assumem, de modo coerente, o Agir da Campanha da Fraternidade 2026, transformando a fé em compromisso concreto com a vida. Isso começa pela acolhida sincera, que rompe a indiferença e o preconceito, reconhece a dignidade de cada pessoa e cria espaços de escuta, convivência e pertença, especialmente para aqueles que vivem em favelas, ocupações, periferias ou em situação de rua.

Esse acolhimento se desdobra no cuidado organizado e permanente. As comunidades são chamadas a articular ações solidárias que não sejam apenas emergenciais, mas que promovam acompanhamento, fortalecimento de vínculos e apoio às famílias mais vulneráveis, em diálogo com pastorais sociais, movimentos populares e iniciativas locais. Dessa forma, a Igreja se faz próxima e presente, sinal do amor de Cristo que caminha com os que sofrem.

O Agir da CF 2026 também convoca as comunidades a irem além da assistência, assumindo uma participação sociopolítica consciente e ativa. A falta de moradia é um problema estrutural e exige políticas públicas de habitação que garantam recursos adequados, planejamento urbano justo e prioridade para os mais pobres. Cabe às comunidades cristãs incentivar a participação popular, formar consciências cidadãs e apoiar a presença das pessoas nos conselhos, fóruns, audiências e espaços de decisão sobre habitação e cidade.

Além disso, o compromisso com o controle social é parte essencial desse agir cristão. Acompanhar, fiscalizar e cobrar a correta aplicação dos recursos públicos destinados à habitação é uma forma concreta de defender a vida e a dignidade humana. Quando a comunidade se envolve nesse processo, contribui para fortalecer a democracia e combater estruturas que geram exclusão.

Assim, unindo acolhida, cuidado, denúncia profética e ação sociopolítica, nossas comunidades se tornam verdadeiras casas de portas abertas. Em sintonia com a Campanha da Fraternidade 2026, elas testemunham uma fé encarnada e transformadora, que gera esperança e colabora para que o direito à moradia digna e à cidade seja efetivamente garantido a todos.

Como educar as novas gerações para uma cultura do cuidado e do direito à cidade?

– (LA): Educar as novas gerações para uma cultura do cuidado e para o direito à cidade é uma urgência ética e social, pois o futuro da vida urbana e da dignidade humana depende das escolhas feitas hoje. O aprofundamento das desigualdades, o déficit habitacional e a exclusão territorial colocam em risco o acesso dos jovens a condições básicas de vida. Quando a moradia é negada, também se fragiliza o acesso a outros direitos fundamentais, como saúde, educação, trabalho, segurança e participação social.

Essa educação começa pelo reconhecimento da moradia como direito e não como privilégio. Crianças, adolescentes e jovens precisam compreender que a cidade não é mercadoria, mas espaço de vida compartilhada, onde todos devem ter lugar. Formar para o direito à cidade significa afirmar que ruas, praças, transporte, moradia, serviços e equipamentos públicos existem para o bem comum e devem ser organizados a partir das necessidades das pessoas, especialmente das mais vulneráveis.

Educar para a cultura do cuidado implica desenvolver sensibilidade diante do sofrimento do outro e senso de responsabilidade coletiva. As novas gerações precisam perceber que a realidade das favelas, ocupações e das pessoas em situação de rua não é algo distante nem inevitável, mas expressão de injustiças que podem ser transformadas. Essa aprendizagem se constrói em experiências concretas de convivência, escuta, serviço, participação comunitária e compromisso social.

Essa formação deve incluir também a consciência cidadã e sociopolítica. Diante do déficit habitacional e das ameaças ao direito à cidade, é fundamental preparar os jovens para participar da vida pública, conhecer políticas urbanas, defender o direito à moradia digna e exercer o controle social. Sem esse processo formativo, corre-se o risco de naturalizar a exclusão e aceitar a perda de direitos como algo normal.

Por isso, educar para a cultura do cuidado e do direito à cidade é investir na defesa da vida. Quando os jovens compreendem que a moradia é condição básica para o exercício dos direitos, tornam-se capazes de sonhar e construir cidades mais justas, inclusivas e humanas. Essa educação não apenas prepara para o futuro, mas protege o presente, garantindo dignidade, pertença e esperança às novas gerações.

Que gestos simples e possíveis podem expressar solidariedade com quem vive em situação de vulnerabilidade habitacional?

– (LA): Gestos simples e possíveis podem expressar uma solidariedade verdadeira com quem vive em situação de vulnerabilidade habitacional quando nascem do reconhecimento de que moradia não se reduz a paredes e teto, mas envolve dignidade, vínculos, cuidado e direitos. Essa solidariedade começa no cotidiano e se fortalece quando se transforma em compromisso comunitário e participação ativa.

Um primeiro gesto é ver e escutar. Olhar para as pessoas em situação de vulnerabilidade sem indiferença, escutar suas histórias, aprender seus nomes e reconhecer sua dignidade rompe a lógica da invisibilidade. Esse contato humano educa o coração para a empatia e o cuidado, especialmente entre crianças e jovens.

Outro gesto concreto é apoiar iniciativas locais. Participar de campanhas solidárias, mutirões, cozinhas comunitárias ou ações junto a famílias em ocupações e periferias cria laços reais de fraternidade. Quando crianças e adolescentes se envolvem nessas experiências, aprendem que cuidar da moradia do outro é também cuidar da cidade e da vida em comum.

A solidariedade se amplia na participação nos movimentos sociais de moradia. Apoiar, divulgar e caminhar junto com esses movimentos reconhece o protagonismo dos pobres na luta por seus direitos. A presença em atos públicos, formações, debates e conselhos transforma a solidariedade em ação coletiva e fortalece a defesa do direito à moradia digna e à cidade.

Outro gesto essencial é educar para a cidadania desde cedo. Em casa, na escola, na catequese e nas comunidades, é possível formar consciências críticas ao ensinar que moradia envolve acesso à cidade, serviços, trabalho, lazer e convivência. Essa formação ajuda a questionar desigualdades e a construir caminhos de justiça.

Assim, gestos como acolher, acompanhar, defender e participar constroem uma solidariedade que supera o assistencialismo e se torna transformadora. Quando assumidos coletivamente, esses compromissos fortalecem uma cultura do cuidado e da corresponsabilidade, na qual a moradia é reconhecida como direito e condição essencial para uma vida digna para todos.