Há cinquenta anos, uma noite de setembro colocou a Diocese de Nova Iguaçu no centro de um dos episódios mais marcantes da relação entre a Igreja Católica e a ditadura militar brasileira. Em 22 de setembro de 1976, Dom Adriano Hypólito, então bispo de Nova Iguaçu, foi sequestrado por homens armados. O objetivo parecia ultrapassar a violência contra uma pessoa: tratava-se de intimidar uma Igreja que, na Baixada Fluminense, havia escolhido estar próxima dos pobres, dos trabalhadores e daqueles que tinham seus direitos violados.
Os jornais do dia seguinte transformaram o acontecimento em notícia nacional. Dias depois, novas páginas traziam a repercussão, as manifestações de solidariedade e as declarações do próprio Dom Adriano.
Cinquenta anos depois, aqueles recortes amarelados não são apenas documentos de arquivo. São fragmentos da memória de uma Igreja que atravessou um período de repressão sem abandonar a convicção de que anunciar o Evangelho também significava defender a dignidade humana.
A própria Comissão Nacional da Verdade, décadas mais tarde, situaria o caso de Dom Adriano no contexto da perseguição sofrida por religiosos durante a ditadura e destacaria sua atuação junto aos pobres, à organização dos trabalhadores e aos movimentos de bairro da Baixada Fluminense.
Uma Igreja que se aproximava do povo
Quando Dom Adriano chegou a Nova Iguaçu, em 1966, encontrou uma Baixada em acelerado crescimento populacional e marcada por profundas desigualdades. A Diocese havia sido criada apenas seis anos antes e também procurava construir sua identidade pastoral.
O novo bispo encontrou no Concílio Vaticano II uma referência para esse caminho. Sob seu episcopado, a Diocese fortaleceu a participação dos leigos, o trabalho comunitário e a presença da Igreja nas periferias. Era um período em que organizar comunidades, falar de direitos dos trabalhadores, denunciar a violência e incentivar a participação popular poderia ser interpretado pelos órgãos de repressão como atividade política suspeita.
Dom Adriano passou a ser vigiado e atacado. Recebeu ameaças e acusações. Acolheu perseguidos e apoiou iniciativas de defesa dos direitos humanos. O trabalho pastoral desenvolvido na Diocese desagradava a setores que enxergavam na organização popular uma ameaça. A pressão aumentou. Amigos chegaram a aconselhá-lo a deixar a Baixada Fluminense.
Ele permaneceu. Sua resposta viria de forma particularmente clara depois do episódio mais violento de sua trajetória.
A noite de 22 de setembro
Era quarta-feira, 22 de setembro de 1976. As reportagens publicadas na época permitem reconstruir os acontecimentos daquele início de noite. Dom Adriano estava acompanhado de seu sobrinho e a noiva, Fernando Leal e Pilar, quando o automóvel em que estavam foi interceptado em Nova Iguaçu, por volta das 19 horas. Apenas o bispo foi levado pelos sequestradores, quando chegaram a rua Paraguaçu, no bairro da Posse, para deixarem Pilar em sua casa.
Horas depois, foi abandonado em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, após sofrer agressões e humilhações. Seu corpo havia sido marcado com tinta vermelha, numa referência às acusações de “comunismo” frequentemente utilizadas contra ele.
Anos mais tarde, o próprio bispo recordaria que, durante o sequestro, percebeu que poderia morrer. Para ele, não havia dúvida de que a violência estava relacionada à sua atuação.
A documentação reunida pela Comissão Nacional da Verdade também relacionou a perseguição sofrida pelo bispo ao seu trabalho na Baixada e descreveu o episódio como exemplo da atuação de agentes “oficiais e oficiosos” durante a ditadura. O crime jamais resultou, na responsabilização de seus autores.
O Fusca transformado em outra mensagem de intimidação
Enquanto Dom Adriano era localizado, outro acontecimento ampliava a repercussão do caso. Seu Fusca havia sido levado pelos sequestradores. O automóvel apareceu no Largo da Glória, no Rio de Janeiro, nas proximidades da sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), onde foi destruído por uma explosão.
As fotografias preservadas nos recortes de jornais impressionam ainda hoje. O veículo praticamente destruído aparece cercado por policiais e curiosos. “Destruição no rastro do terror”, dizia uma das legendas. Outra reportagem estampava: “Terroristas que atacaram o Bispo já fugiram do Rio”.
A escolha do lugar onde o automóvel foi deixado carregava evidente significado intimidatório: a violência que atingira o bispo de Nova Iguaçu era colocada diante da instituição representativa do episcopado brasileiro.

A repercussão rapidamente ultrapassou a Baixada. Houveram mostram manifestações de bispos, organismos eclesiais e autoridades. A notícia chegou também ao Vaticano. Uma das manchetes daqueles dias anunciava: “Papa protesta contra o sequestro do Bispo de Nova Iguaçu”. A tentativa de intimidar uma Igreja local havia se transformado em assunto nacional e internacional.
“Nós temos de continuar”
Talvez a resposta mais importante, entretanto, tenha sido dada em Nova Iguaçu. Em 3 de outubro de 1976, poucos dias depois do sequestro, uma concelebração de desagravo reuniu a comunidade na Catedral. Dom Adriano voltou ao altar.
Poderia ter feito daquele momento apenas uma denúncia da violência que sofrera. Preferiu falar sobre a missão da Igreja. O título de um dos trechos de seu sermão resumia sua decisão: “Continuar”.
“Daí porque, meus irmãos, nós devemos continuar.”
Para Dom Adriano, continuar não significava ignorar o que havia acontecido. Significava reafirmar por que a Igreja estava naquele caminho. Se sua missão era servir, anunciar a esperança e defender a dignidade humana, a intimidação não poderia determinar o rumo da ação pastoral.
Em outro trecho, sintetizou: “Não podemos deixar de falar daquilo que vimos e ouvimos.”
Sua reflexão ia além de sua própria experiência. Dom Adriano fazia questão de lembrar que Igreja não significava somente bispos e padres. Era toda a comunidade cristã. A resposta ao medo, portanto, deveria ser comunitária.
Ele também reafirmou naquele sermão sua ligação com a região onde já estava havia dez anos:
“Eu peço a Deus pra morrer aqui, servir sempre aqui.”
A frase ganha outra dimensão quando lida cinquenta anos depois. Após ter sido ameaçado, sequestrado e aconselhado a deixar a Baixada, Dom Adriano dizia publicamente que pretendia permanecer.
A perseguição não terminou em 1976
O sequestro não encerrou as intimidações. Em junho de 1977, homens armados impediram a realização de uma atividade sobre direitos humanos no Centro de Formação de Líderes, em Nova Iguaçu. A conferência estava relacionada ao processo que levaria à organização da Comissão Diocesana Justiça e Paz.
Em novembro de 1979, a Catedral de Santo Antônio de Jacutinga e a Igreja da Prata amanheceram pichadas com acusações contra Dom Adriano e referências ao comunismo. Pouco mais de um mês depois, em 20 de dezembro, a Catedral sofreu um atentado a bomba. O explosivo atingiu o altar e provocou danos na igreja.
Os episódios formavam uma sequência de intimidações contra uma Igreja cuja atuação social incomodava setores ligados à repressão. Ainda assim, a caminhada prosseguiu.
A defesa dos direitos humanos ganhou estrutura cada vez maior dentro da Diocese. Em 1978, Dom Adriano iniciou a Comissão de Justiça e Paz e, anos depois, em 1993, foi criado o Centro dos Direitos Humanos de Nova Iguaçu, instituição que permanece associada à memória de seu episcopado.
Uma esperança para Nova Iguaçu
No sermão de outubro de 1976, Dom Adriano não falou somente em resistência. Falou de futuro. Sua esperança era que o sofrimento daqueles dias pudesse fortalecer a unidade da comunidade. Desejava uma população mais consciente de sua responsabilidade pelos irmãos e uma Igreja ainda mais presente na realidade da Baixada.
“Eu gostaria que estes acontecimentos fossem o princípio de um esforço de unidade.”
E concluiu olhando além daquela conjuntura: “De certo alguma coisa de grande vai sair daqui desta comunidade de Nova Iguaçu, tão sacrificada.”
Dom Adriano permaneceu à frente da Igreja de Nova Iguaçu por quase três décadas. Sua trajetória continuou ligada às comunidades populares, à formação pastoral e à defesa dos direitos humanos.
Morreu em 10 de agosto de 1996. Trinta anos depois de sua morte, em agosto deste ano, a Diocese voltou a reunir-se junto ao seu túmulo, na Catedral, para recordar seu testemunho. Na ocasião, Dom Gilson Andrade, bispo de Nova Iguaçu ressaltou a atualidade das referências deixadas por aqueles que ajudaram a construir a história da Igreja local e destacou um ponto que aproxima São Lourenço e Dom Adriano: a compreensão dos pobres como riqueza da Igreja.
Cinquenta anos depois
Em 22 de setembro de 2026, recordar o sequestro de Dom Adriano não significa celebrar a violência que ele sofreu. Significa preservar uma memória.
As páginas dos jornais de 1976, hoje amareladas pelo tempo, registraram o espanto daquele momento. Fotografias, manchetes, documentos e testemunhos permitem às novas gerações perceber que acontecimentos que hoje pertencem aos livros de História tiveram endereço, nomes e consequências muito concretas na Baixada Fluminense.
Mas há outra memória igualmente importante. Aquela que começa depois do sequestro. É a imagem de um bispo que retorna à sua Catedral e, diante de uma comunidade assustada, não anuncia retirada nem vingança. Fala de esperança, unidade, serviço e responsabilidade.
A violência daquela noite pretendia produzir silêncio. Cinquenta anos depois, as palavras de Dom Adriano continuam sendo lidas. E talvez nenhuma delas traduza melhor o significado desta memória para a Diocese de Nova Iguaçu do que aquela pronunciada poucos dias após o sequestro: “Nós temos de continuar.”
Imagens: Arquivo Diocesano









Agência Hesed.