Prof. Dr. Cláudio Vianney Malzoni: “O Espírito traz a libertação para que possamos viver como filhos de Deus.”

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A paixão pela Palavra de Deus acompanha a vida do Prof. Dr. Cláudio Vianney Malzoni desde a juventude, quando, ao conhecer as comunidades eclesiais de base, descobriu a beleza de uma fé enraizada na Escritura. Esse encontro marcou profundamente seu caminho e o levou a dedicar-se com afinco ao estudo da Bíblia, unindo rigor acadêmico e compromisso pastoral.

Com sólida formação em exegese bíblica, adquirida no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém, atuou na Escola Dominicana de Teologia, em São Paulo, e hoje é professor e pesquisador na Universidade Católica de Pernambuco. Nesta entrevista, ele nos ajuda a redescobrir a atualidade da Carta aos Romanos, oferecendo chaves de leitura que iluminam a vida da Igreja e de nossas comunidades.

Professor, a Carta aos Romanos é considerada um dos textos mais densos e teológicos de Paulo. O que a torna tão especial dentro do conjunto das cartas paulinas?
– PROFESSOR DR. CLÁUDIO VIANNEY MALZONI (CM): A Carta aos Romanos é considerada um dos textos mais densos e teológicos de Paulo, o que a torna especial dentro do conjunto das cartas paulinas. Podemos dizer que todas as cartas paulinas são especiais, cada uma a seu modo, cada uma tem algo que a torna muito importante. O que faz a Carta aos Romanos ser importante e especial, em primeiro lugar, é o fato de ser a mais longa das cartas de Paulo. Nela, o apóstolo faz uma exposição mais detalhada, simples e calma de sua doutrina sobre a salvação. Há dois ou três temas centrais na Carta aos Romanos, sendo um deles a salvação, assunto que ocupa grande parte da carta, do capítulo 1 até o capítulo 8.

O apóstolo fala da “circuncisão do coração” (Rm 2,29). Que atualidade essa imagem tem para os cristãos do nosso tempo?
– (CM): Quando Paulo escreve em Romanos 2,29 sobre a circuncisão do coração, ele está se referindo aos judeus. Esse versículo está inserido em uma parte da carta na qual Paulo descreve a situação de pecado em que vive a humanidade. Primeiro, ele fala da condição de pecado dos gentios e, depois, da condição de pecado dos judeus. Especificamente ao tratar da situação dos judeus, Paulo afirma que eles não honram seu chamado e sua eleição como povo de Deus e, por isso, desonram o nome de Deus entre as nações. É nesse contexto que ele fala da importância da circuncisão do coração. Veja, Paulo não está fazendo uma argumentação negativa nem a respeito dos judeus nem dos gentios. Ao descrever a situação de pecado da humanidade, ele o faz para ressaltar a misericórdia, a compaixão e a gratuidade da ação de Deus, que justifica gratuitamente, como dom, tanto judeus quanto gentios. O que Paulo deseja, no fundo, é colocar toda a humanidade no mesmo nível, pois os judeus, de seu próprio ponto de vista, se consideravam superiores aos demais povos. Por isso Paulo insiste: todos estão na mesma condição de pecado, sem nenhuma superioridade de parte alguma. Todos nós partimos do mesmo ponto: a humanidade marcada pelo pecado. Se pensarmos na atualidade dessa imagem para os cristãos de hoje, podemos dizer que ela nos recorda que não somos superiores às outras pessoas por sermos cristãos. Nossa missão deve ser vivida com humildade, sem jamais pensar que, por sermos cristãos, estamos acima dos outros. Não. Nós cristãos somos igualmente necessitados da salvação de Deus, assim como toda a humanidade.

Em Romanos 5, Paulo contrapõe Adão e Cristo: pecado e morte de um lado, justificação e vida de outro. Como essa visão nos ajuda a compreender o mistério da reconciliação em Cristo?
– (CM): No capítulo 5 da Carta aos Romanos, Paulo aborda o tema da reconciliação. Essa reconciliação é entre Deus e a humanidade. Quando Deus cria Adão, Ele o cria como seu colaborador. Deus e Adão vivem uma relação de amizade e colaboração que tem como resultado o cuidado com a criação. Deus coloca Adão no paraíso para cuidar do paraíso. Mas nós conhecemos a história que é contada lá nos capítulos 2 e 3 do Livro do Gênesis: Adão não vai ser fiel a essa relação de amizade com Deus, que, portanto, é quebrada. Vejam: no capítulo 5 da Carta aos Romanos, Paulo faz essa contraposição entre Adão e Cristo, que ele chama de Novo Adão, e trabalha, nesse capítulo, com três antíteses: desobediência/obediência, pecado/graça, morte/vida. Então vamos lá: com Adão, temos a desobediência; a consequência da desobediência é o pecado; e a consequência do pecado é a morte, a morte que entra no mundo. Com Cristo, dá-se o oposto: em lugar da desobediência, a obediência; e a obediência de Cristo nos alcança a graça; e a graça nos traz a vida e, novamente, a amizade com Deus, que tem como resultado o cuidado com a criação. Portanto, compreendemos aí o mistério da reconciliação em Cristo. Mas é importante frisar que Paulo fala de uma relação entre desobediência e obediência, pecado e graça, morte e vida, mas que não é uma relação proporcional, porque diante da obediência de Cristo, a desobediência de Adão é pequena. Diante da graça que Cristo nos alcança, o pecado de Adão é pequeno. Diante da vida que Cristo nos traz, a morte que veio com o pecado de Adão é insignificante. Paulo expressa isso com aquela frase bem conhecida: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça. ”

Para Paulo, o Batismo é morrer para o pecado e viver para Deus em Cristo. Como recuperar essa dimensão existencial do Batismo na vida pastoral de nossas comunidades?
– (CM): A reflexão de Paulo sobre o batismo está nos capítulos 6 e 7 da Carta aos Romanos, mais especificamente no capítulo 6. Ali, Paulo trata da salvação enquanto libertação. Paulo e seus interlocutores viviam no Império Romano, que era uma sociedade escravagista, na qual havia muitas pessoas escravas, e ele vai usar essa metáfora da libertação para tratar desse novo aspecto da salvação. Para Paulo, o ser humano está numa situação de escravo do pecado. A libertação é, portanto, a libertação dessa escravidão do pecado, que domina o ser humano. O pecado, enquanto senhor, é tirano. O pecado nunca vai dar uma alforria, nunca vai dar liberdade àquele que ele escravizou. O pecado é, portanto, esse senhor tirano em nossas vidas, na vida da humanidade. Como libertar-se dessa escravidão do pecado? Para Paulo, essa libertação acontece quando a pessoa aceita morrer para o pecado. Então é aí que vem a reflexão de Paulo sobre o batismo, porque o batismo é mergulhar na paixão, morte e ressurreição de Jesus: morrer para o pecado e ressuscitar com Cristo para uma vida nova. Portanto, na reflexão de Paulo, o batismo está estritamente e intimamente ligado à questão da morte, no mergulho na morte e ressurreição de Jesus: aceitando morrer com Cristo, morrer para o pecado e ressuscitar para uma vida nova, a vida da nova criatura. Na pastoral de nossas comunidades, penso que é muito importante frisar esse aspecto: o batismo é um mergulho na existência de Cristo, em sua morte e em sua ressurreição. Não podemos pensar no batismo apenas como um rito, embora isso também seja importante, mas essa dimensão cristológica do batismo não pode estar ausente. Repito: o batismo é um mergulho. A própria palavra “batismo” no grego significa mergulho: mergulho na morte e ressurreição de Jesus Cristo, morrendo para o pecado e ressuscitando para uma vida nova.

Quais são os principais traços da esperança que encontramos nesta carta? Como essa esperança pode iluminar a vida da Igreja hoje?
– (CM): A palavra esperança, o verbo “esperançar” e também o substantivo expectativa aparecem diversas vezes na Carta aos Romanos. Vou selecionar apenas duas dessas ocorrências. A primeira se encontra no capítulo 4, onde Paulo reflete sobre o casal Abraão e Sara, que viveram na esperança, unindo-a à fé. Assim, fé e esperança caminham juntas. Abraão e Sara, nossos patriarcas, são modelos de pessoas que viveram na esperança e na fé, mostrando a importância de unir as duas virtudes. O outro ponto está no capítulo 15 da Carta aos Romanos. Nele encontramos a seguinte afirmação de Paulo a respeito da Sagrada Escritura: “Tudo o que outrora foi escrito, foi escrito para nossa instrução, para que, pela constância e pela consolação que as Escrituras nos dão, tenhamos esperança” (Rm 15,4). Ou seja, a leitura assídua das Escrituras nos dá constância e consolo, levando-nos a cultivar a esperança. Ainda nesse capítulo, no versículo 13, Paulo escreve: “Que o Deus da esperança vos encha de toda alegria e paz em vossa vida de fé, para que a vossa esperança transborde pelo poder do Espírito Santo.” Vemos, então, a importância que Paulo dá à esperança, chegando inclusive a chamar nosso Deus de “Deus da esperança”. Para a Igreja hoje, isso é de imensa relevância, pois não se pode conceber uma Igreja sem esperança. Uma Igreja sem esperança seria uma Igreja que desistiu de ser Igreja, que desistiu de realizar sua missão. E a missão da Igreja é justamente trazer esperança a um mundo no qual tantas vezes ela falta. Mas onde encontrar essa esperança? Podemos ficar com esses dois exemplos da Carta aos Romanos: no capítulo 4, a união entre fé e esperança (juntamente com a caridade, as três virtudes teologais) e, no capítulo 15, a leitura assídua das Escrituras, que gera a constância capaz de sustentar a esperança.

Romanos 8 é considerado por muitos o coração da carta. O que torna esse capítulo tão central para a fé cristã?
– (CM): Em Romanos 8, Paulo conclui a sua apresentação sobre a salvação, com o quarto e último aspecto da salvação: a santificação. Ele tinha terminado o capítulo 7 com uma pergunta muito importante, emprestando a sua voz à pessoa que se sente angustiada, a pessoa que quer fazer o bem, mas não consegue realizá-lo. Agora, no capítulo 8, ele começa respondendo a essa questão: como a pessoa pode querer fazer o bem e, de fato, realizá-lo? Paulo vai dizer que isso acontece deixando que o Espírito Santo habite em seu corpo. Assim, o corpo já não é mais lugar de habitação do pecado, mas passa a ser lugar de habitação do Espírito. É o Espírito que nos conduz à santificação. Para falar do Espírito, Paulo usa duas imagens: a primeira, já mencionada, é o Espírito que habita em nosso corpo; e a segunda é deixar-se conduzir pelo Espírito. Isso tudo faz de nós filhos de Deus. Portanto, esse capítulo também aborda a espiritualidade filial, porque muitos têm uma espiritualidade servil, vendo Deus como um patrão, e não como um Pai. O que torna esse capítulo central para a fé cristã é a apresentação da nossa relação com Deus como uma relação filial, e não servil. Além disso, mostra que a santificação consiste em deixar-se habitar e conduzir pelo Espírito Santo.

Paulo apresenta o Espírito como força que liberta e como garantia da esperança. Como essa visão pode fortalecer a espiritualidade da Igreja hoje?
– (CM): Continuamos no capítulo 8 da Carta aos Romanos, que é centrado na figura do Espírito. O Espírito traz a libertação para que possamos viver como filhos de Deus. Paulo diz que a nossa filiação divina ainda não está manifestada em sua plenitude. Quando essa filiação se manifestar plenamente, também a criação, que está em expectativa dessa manifestação, participará da glória dos filhos de Deus. Nesse sentido, para a Igreja hoje, a apresentação de Paulo é muito importante, sobretudo após o pontificado do Papa Francisco, que chamou nossa atenção para o cuidado com a Casa Comum, o cuidado com toda a criação. O Espírito é força que nos liberta, também para que possamos cuidar da Casa Comum, cuidar da criação. Isso é uma grande esperança: a esperança de vivermos em um planeta mais humano, mais atencioso para com as formas de vida mais frágeis, tanto entre os humanos quanto entre toda a criação. O Espírito nos liberta para que possamos, novamente, voltar a cuidar de toda a criação. Essa é uma grande proposta de espiritualidade para a nossa Igreja hoje.

O hino ao amor de Deus (Rm 8,31-39) é um dos textos mais belos do Novo Testamento. Como essa certeza de que nada pode nos separar do amor de Cristo pode inspirar os cristãos em tempos de sofrimento e perseguição?
– (CM): Sim, essa afirmação, essa certeza de que nada pode nos separar do amor de Cristo, que nós encontramos nessa perícope da Carta aos Romanos (que tem mesmo toda a aparência de um hino, um hino ao amor de Deus), pode nos inspirar em todos os tempos. Nós, cristãos, em todos os tempos: em tempos de alegria, em tempos de festa, em tempos de tristeza, em tempos de sofrimento e em tempos de perseguição. Nada pode nos separar do amor de Cristo. É possível que Paulo tenha escrito isso pensando em certas concepções religiosas que havia em seu tempo, que pregavam um certo fatalismo, como se tudo o que ocorresse na vida das pessoas fosse vontade de Deus. Não. Ele vai dizer que só o bem que ocorre em nossas vidas vem de Deus. Nem tudo vem de Deus em nossas vidas. As coisas que chegam à nossa vida e não vêm de Deus provêm da maldade, provêm de pessoas com más intenções. Mas nada disso é mais forte que Deus. Nada pode nos separar do amor de Deus que se manifestou em Jesus Cristo. Guardemos isso. Lembremos sempre disso em todas as situações da nossa vida: nada vai nos separar do amor de Cristo. Quando estamos felizes, é mais fácil nos lembrarmos disso. Nos tempos de tristeza, sofrimento e perseguição, é mais difícil recordar. Pensemos, de modo especial, nas pessoas que sofrem muito, como aquelas que estão em meio à guerra, guerras que destroem tantas vidas em várias partes do planeta. Talvez elas se desesperem, pensando: “Será que Deus nos abandonou?” Não! Deus não nos abandonou. A grande certeza é esta: a guerra não vem de Deus. O que vem de Deus para a nossa vida é só o bem, é só a paz.